Pesquisas médicas apontam: amigas nos reanimam mais que desfibriladores

Eu não tenho tempo pra nada. Sim, eu sei que você também não tem. Parece que a vida adulta chegou mais corrida na nossa vez e, pra melhorar, eu inventei de empreender (o que me avisaram que poderia causar danos irreversíveis no cérebro).

Acordar no meio da noite com taquicardia, ter mini paradas cardiorrespiratórias com a chegada de determinados e-mails e chorar escorrendo o corpo pela parede do banheiro são alguns sintomas extremamente comuns no meu mundinho cor de rosa.

Alguém falou que a “roda precisa girar”, “trabalhe enquanto eles dormem” e “foco, força e fé” (?) e por mais que eu tente relaxar, trabalhar menos e ter momentos de autocuidado sem ser ficar especialmente obcecada por passos de skincare, é impossível não seguir esse fluxo, ainda mais quando um negócio inteiro depende de você.

Parece que se eu não trabalhar mais e mais, estarei perdendo o embalo, quase como quando a gente acelera o carro pra não deixar ele morrer (sim, estou fazendo aulas de direção e meu instrutor fica louco quando faço isso). Mas não era sobre isso que eu queria falar, tá vendo como eu me perco? O que eu queria era contar como foram as minhas últimas 48h. 

Eu ontem, passando os olhos pelas minhas 1521 conversas mais recentes de WhatsApp, sendo 90% delas relacionadas a trabalho, encontrei uma mensagem perdida de uma das minhas amigas de adolescência. Ela dizia “quando você pode?” e tinha sido enviada há mais de um mês. Ela tava perguntando sobre minha agenda pra gente marcar um almoço e eu nem sequer respondi. 

Me prontifiquei (um mês depois, tudo bem?): “Amanhã eu posso! E você?” e marcamos um almoço. Assim mesmo, de um dia pro outro, porque se não é assim também não vai. A gente fica nesse “vamo marcar”, “vamo sim”, “me avisa!”, “sim, vamos falando” que vai dando enjôo. Alguém precisa fazer alguma coisa pra o encontro acontecer.

Hoje, pela manhã, depois de tomar meu café, olhar meus e-mails e começar a sentir meu coração acelerando com a batida do dia a dia, me arrependi. “Será que hoje é um bom dia mesmo pra esse almoço? Tenho tanta coisa importante pra resolver, e isso vai cortar minha produtividade no meio, vai me atrapalhar completamente” – e sentindo muita culpa, pensei em desmarcar.

Vai ficar chato, né? Bem, não se ela desmarcar antes. Mandei uma primeira mensagem “E aí amiga, tá confirmado nosso almoço hoje?” – torcendo pra que ela falasse sobre um imprevisto, uma consulta esquecida na agenda, uma vó que precisa ser levada pro judô, uma unha do pé encravada de última hora. “Tá sim!” – ela respondeu.

“Pode ser às (horário tecnicamente ruim pra um almoço)?” mandei essa sugestão na esperança de ela se sentir ofendida e cancelar tudo – “Pode sim, claro!” – ARRRGGGGG, eu vou ter que ir nesse almoço. Adiantei tudo o que pude, respondi todas as mensagens pendentes, saí atrasada de casa pra conseguir deixar tudo em ordem. 

Ela chegou depois de mim no restaurante e quando vi ela no meio de atendentes, clientes, rostos de diversos desconhecidos, senti uma sensação de casa. Ela vinha até mim do mesmo jeito que no colégio depois de pegar um lanche da cantina, do mesmo jeito que na balada depois de beijar um cara bonitinho, do mesmo jeito de quando veio me trazer o convite do seu casamento. Ela sorria e meu coração aqueceu. Nos abraçamos como se não tivesse mais nada à nossa volta.

O “almocinho” que era pra durar 2 horas, durou 4. Comecei falando do meu trabalho (óbvio) mas fomos migrando pra outros assuntos, perguntei com interesse sobre a atual rotina dela, falamos sobre família, casamento, filhos, não-filhos, planos, nossa visão sobre vários assuntos. Falamos mal das fubangas da escola. Tomamos drinks. Fazia muito tempo que a gente não se encontrava mas a sensação era de que a gente tinha se visto semana passada. Desmarquei todos os compromissos que eu tinha na minha agenda para o final da tarde. Agora eu tô aqui.

O almoço se estendeu pra um café com bolinho, que se estendeu pra uma passada demorada em uma livraria charmosa, que se estendeu pra uma lojinha de antiguidades, e ela me deu uma carona pra casa. Viemos tagarelando no caminho como nos tempos de faculdade, ouvindo música, rindo até a barriga doer como se qualquer coisa fosse engraçada, conversando como se o tempo ainda fosse muito pouco pra tudo o que a gente tinha pra viver.

Cheguei em casa depois das 20h. Por um momento me caiu a ficha de que tinha passado todo esse tempo sem checar meu celular. Quase todas essas horas sem abrir o WhatsApp, sem ver meus e-mails, sem olhar nenhuma mensagem na DM do Instagram. Parecia que eu tinha ido pra outra atmosfera e caído aqui de novo.

E bem, nada mudou. Tá, o Ozzy Osbourne morreu tadinho, mas tirando isso, nada mudou nessa grande esfera que chamamos de mundo. Eu não perdi nenhuma notícia importante, não ganhei 1 milhão de seguidores por uma viralização, todos os meus parceiros, clientes e trabalhos continuaram alí no mesmo lugarzinho que eu deixei antes de sair.

Entendi que esse almoço foi uma ressurreição. Como se eu tivesse sido desfibrilada, reanimada. Me arrisco a dizer que se eu tivesse passado horas em um SPA não teria surtido o mesmo efeito relaxante e restaurador, uma vez que eu ainda estaria refém da minha própria mente. Com a minha amiga eu saí daqui de dentro, saí de mim. Pude ver a luz do sol lá fora (e nem estou sendo literal aqui, embora tenha ficado poético).

E eu não sei bem como terminar esse texto, sempre acho difícil fechar textos reflexivos, acho que vou finalizar só fazendo uma súplica pra que você nunca nunca nunca abandone suas amigas, nunca deixe de ter tempo pra elas, não importa quanto tempo passe, não importa quantos compromissos importantes você tenha com o seu trabalho, sua família, seus filhos, seu relacionamento, ou até você mesma. Encontre 20 minutos pra encontrar uma amiga.

Quando a gente pensa em autocuidado, a gente pensa em acordar cedo no sábado pra fazer yoga, tomar banho à luz de velas depois de passar máscara de argila no rosto, ler livros de desenvolvimento pessoal enquanto come mingau de aveia com maçã. Mas garanto que uma tarde rindo com uma amiga faz mais pelo seu coração que 1h de caminhada por dia (e mais pela sua pele do que luz pulsada).

– *Esse blog não é contra procedimentos estéticos, inclusive amo. 


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